Humanismo e Existencialismo: Parte 6 - Carl Gustav Jung - I - Mitos e Arquétipos

A Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo.
Humanismo e Existencialismo: Parte 6 - Carl Gustav Jung, I - Mitos e Arquétipos

"Estamos a negar o principal objeto da existência, a nossa preservação" - charlie777pt

1. Introdução


"Não há nascimento da consciência sem dor." - Carl Jung

Este post sobre Carl Jung será dividido em duas partes, porque a multiplicidade de conceitos envolvidos nas suas teorias, não pode ser digerida em apenas um post, o que incorreria no risco de descaracterização de sua teoria.
Carl Jung refere que teve uma infância estressante, com uma mãe propensa ao isolamento causado pelos "espíritos", que de noite vinham assombrá-la, e tinha que fugir e isolar-se no seu quarto, um hábito que criou nele um profundo medo da sua mãe.
Depois de ler Kraft Ebding, ele descobriu uma frase dizendo que a psicose era uma doença da personalidade, o que mudou a sua maneira de lidar com o espírito humano, fazendo com que Jung decidisse ser um alienista, após a sua decisão de ser médico.

Jung conheceu Freud que assume uma posição de pai para dar ao seu novo filho a herança do Feudo da Psicanálise, criando uma relação que tinha de ser quebrada, uma história que vale a pena ver no segundo video em baixo (em inglês).
Como muitos outros membros que se uniram ao Clube de Viena, como Otto Rank e Wilhelm Reich, quando criaram idéias pessoais que poderiam prejudicar o dogma sagrado da psicanálise, tiveram que ser punidos, expulsos e excomungados, e o mesmo aconteceu com Carl Jung.
A sua dialética subjetiva da dualidade de forças opostas da natureza humana como yin / yang e dentro / fora, era uma outra visão diferente das trindades objetivas de Freud como oral / anal / genital e id / ego / superego.

"Não podemos mudar nada até aceitá-lo. A condenação não liberta, oprime." Carl Jung - Psiquiatra

2 - Carl Jung (1875-1961) - Mitos e Arquétipos


"Não há nascimento de consciência sem dor." - Carl Jung

Carl Jung estudou as manifestações do Inconsciente Coletivo, onde vivem os Arquétipos Universais revelados nas obras de arte, ou na sua Terapia dos Sonhos centrada no Eu, que ele não podia ver como um objeto, mas sim como uma experiência que podia ser acedida por exemplo na forma do simbolismo duma Mandala.
Ele materializou este fenómeno em todas as mandalas que desenhou depois de 1916, como diagramas revelando as estruturas da mente, datando do Budismo do Himalaia, que o utilizava para meditação, e também alguns menos ricos ainda são hoje vistos em alguns ícones da igreja cristã.
Todas estas mandalas podem ser vistas no recentemente publicado "O Livro Vermelho", que estava sempre na mesa de Jung e contém todos os seus desenhos.
Ele introduziu a arte das mandalas na civilização ocidental, que são como uma espécie de fractal que emanam as forças da mente convergindo para um centro, como uma espécie de buraco negro dissolvendo as energias opostas das contradições ocultas internas do pensamento, assim como as espirais, dos mitos da humanidade simbólica como conteúdo arquetípico.

"descobrimos símbolos mandala nos produtos do inconsciente" - Carl Jung

Ele viu que os sonhos, as obras de arte e as manifestações humanas representam o mundo simbólico e mítico primordial, que ele tenta encontrar o significado nos arquétipos.
O Inconsciente Coletivo é o repositório da parte da memória humana a que ele chamou Arquétipos, como padrões estruturais herdados dos mitos da cultura (s).
Se não nos consciencializarmos destas contradições internas, elas aparecerão fora de nossa vida como Fado, tomando conta da construção do nosso próprio Destino, que está nas nossas mãos..

"Hoje a humanidade, como nunca antes, está dividida em duas metades aparentemente irreconciliáveis" ... "A regra psicológica diz que quando uma situação interior não é feita consciente, acontece fora, como destino. Isto é, quando o indivíduo permanece indiviso e não se torna consciente de suas contradições internas, o mundo deve forçar o conflito e ser dividido em metades opostas. ”- Carl Jung

Carl Jung viveu quase toda a sua vida numa casa no meio da natureza, sem eletricidade ou água corrente, e ele fazia de tudo, deste cozinhar, lavar as suas roupas e até mesmo cultivar as suas próprias batatas e legumes, porque ele se identificava com a ideia de ser um homem simples, vivendo total comunhão com a natureza e o ecossistema.
Carl Jung foi, sem dúvida, um dos pilares da fundação da psicologia humanista e transpessoal, centrada no indivíduo.
Ele sabia que a ciência não tinha lugar para lidar com o mundo consciente e inconsciente, porque a racionalidade poderia explicar o mundo físico externo, mas não o reino mítico irracional da mente, que o homem/mulher usa para expressar os seus mitos individuais e afirmar a singularidade da sua vida.
Jung além de desenhar Mandalas, também gostava de expressar o seu lado interior sombrio da mente, em esculturas que ele fez toda a sua vida, tentando criar manifestações externas do território espiritual desconhecido dos arquétipos que habitavam sua alma, e como ele dizia os sonhos, arte e a imaginação são o oráculo para encontrar respostas, para escolher nosso futuro caminho de vida e para encontrar uma plena plenitude espiritual e uma vida mais verdadeira, como um processo de individuação.

"Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda." Carl Jung

O processo de individuação é muito semelhante ao princípio da auto-realização e auto-atualização, colocando o Eu no centro da capacidade que as pessoas têm de de mudar e encontrar satisfação na sua vida, encontrando essa força na procura do seu inconsciente..
Ele mergulhou no agnosticismo, estudou alquimia e arqueologia, e até fez a primeira tradução para o mundo ocidental do livro I Ching, que possuo na primeira edição em inglês, e que foi um dos meus livros perto da cama durante anos, junto com o livro. "Laços" de Ronald D. Laing.
Ele abraçou e estudou todas as religiões e chegou a uma fé múltipla mista, que não era normal nos seus tempos num homem ocidental, proporcionando-lhe uma tolerância infinita e respeito por qualquer manifestação do homem e da cultura, que pode abrir o diálogo no no nosso Mundo totalmente polarizado por de crenças, intolerância cultural e religiosa, traduzido na atual era belicista, que fecha a compreensão mútua e compaixão humana.

"A minha vida é a história da auto-realização do Inconsciente" - Carl Jung

Ele tinha uma sala privada de meditação ainda hoje fechada ao público, onde visitava o seu mundo interior, para sair depois para o mundo real do seu jardim, para o contato direto com a natureza como o reino do mundo exterior.
Ele via a religião como uma projeção do nosso ser interior que as pessoas usam, como uma manifestação psicológica de homens e mulheres, uma conexão do interior com o nível cósmico de uma entidade holística divina.
Mas como ele enfatizou, não tinha nada a ver com o pensamento cristão de deus, que ele abandonou na sua infância, e com o seu envelhecimento, ele chegou ao conceito de "não deus" do naturalismo religioso, que quando nos conhecemois, então conhecemos deus na perfeita conexão com a natureza.

3 - Carl Jung - A Teoria, Arquétipos e Funções


“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas são transformadas.” - Carl Jung

A psique humana é movida por forças arquetípicas ocultas, e todo ser humano tem um arquétipo, por exemplo, o "conceito" da Mãe que é partilhado por todas as pessoas em qualquer cultura.

Os Arquétipos estão emaranhados com os nossos Instintos, na forma da mente inconsciente coletiva, que nos influencia em conjunção como o nosso Inconsciente Pessoal (complexos).

“O arquétipo é uma força. Tem autonomia. Ele pode subitamente apoderar-se de si. É como uma convulsão. ”- Carl Jung

Os quatro principais arquétipos de Jung são a Persona, a Sombra, a Anima / Animus e o Self unificador.

  • A Persona(gem) (composto de pessoa e personalidade) representa a nossa imagem pública, a maneira como agimos socialmente como uma "máscara" que usamos para manifestar o nosso Ser na existência.

“(A persona) é uma espécie de máscara, projetada, por um lado, para causar uma impressão definitiva nos outros e, por outro, para ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.” ... “a persona é um semblante ... a dissolução da persona é, portanto, absolutamente necessária para a individuação. "- Carl Jung

  • A Sombra é a parte mais sombria e velada da mente, onde a nossa vergonha e culpa estão escondidas por dentro, que devemos perfurar dentro para encontrar o nosso eu.

"A Sombra é um problema moral que desafia toda a personalidade do ego, pois ninguém pode tornar-se consciente da sombra sem considerável esforço moral. Conscientizar-se envolve reconhecer os aspectos sombrios da personalidade como presente e real. Este ato é uma condição essencial para qualquer tipo de autoconhecimento ".- Carl Jung

  • A Anima / Animus é uma dualidade, onde a Anima é o aspecto feminino que habita no inconsciente coletivo dos homens, e o Animus é o aspecto masculino que vive no inconsciente coletivo das mulheres, um conceito com muita relação com o Yin / Yang teoria.

"A aceitação da feminilidade leva à conclusão. O mesmo é válido para a mulher que aceita sua masculinidade." - Carl Jung

  • O Self é a organização arquetípica, como uma totalização das outras três partes constituintes que impulsiona a pessoa no processo de encontrar singularidade e individuação.

"O homem não suporta uma vida sem sentido" - Carl Jung

As mandalas são todas baseadas no quadrado de um círculo, expressando a dualidade de forças na psique humana.

Uma mandala budista: Fonte da Imagem

É estranho encontrar neste mandala do budismo, o que pode ter inspirado a cruz suástica que seria o exemplo da utilização um símbolo do bem para utilizar no mal, uma das muitas dualidades humanas que Jung tentou desvendar.

"Tu és o que fazes, não o que dizes que vais fazer" - Carl Jung

No próximo post, vou continuar a falar sobre Carl Jung, principalmente sobre os tipos de personalidade e de como alguém que quer conhecer seu Self, pode fazer o Teste de Personalidade de Meyers-Briggs e usar os resultados para toda a vida

Leituras adicionais:
Ver Mandalas de Carl Jung do "The Red Book"
Os três níveis de representação da mandala, segundo JUNG.

Video (Legendado em Português) :

Entrevista - Carl Gustav Jung / Agosto de 1957 - Legendado em Português

Self | Mandala e a Simbologia do Círculo

Videos (Em Inglês:

Philosophy Feuds: Freud vs Jung


C.G. Jung at Bollingen – Rare Documentary Footage

Carl Gustav Jung - Inheritance of Dreams

Carl Jung: "The world hangs on a thin thread...."

A Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo.
Artigos publicados:

I - Anarquismo
II - Existencialismo
Próximos posts da Série:
II - Existencialismo(Cont.)
  • Os "Existencialistas" (Cont.)
  • Humanismo e Existencialismo
    • Parte 6 - Carl Gustav Jung - II - Tipos Psicológicos
    • Parte 7 - Thomas Szasz - A Fábrica da Loucura
  • Existencialismo e Anarquismo
  • O Futuro: Pós-Humanismo, Transumanismo e Inumanismo
III - Descentralismo
  • O que é o Descentralismo?
  • A Filosofia do Descentralismo
  • Blockchain e Descentralização
  • Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo
IV - A Dialética da Auto-Libertação
  • A contra-cultura nos anos 60
  • Psicadelismo e movimentos Libertários e Artísticos
  • O Congresso da Dialética da Libertação
  • O Budismo Zen de Alan Watts
  • Psicanálise e existencialismo
  • O movimento antipsiquiátrico
  • Anarquismo, Existencialismo, Descentralismo e Auto-Libertação
V - Conclusões e Epílogo
Referências:
- charlie777pt on Steemit:
A Realidade Social : Violência, Poder e Mudança
Índice do Capítulo 1 - Anarquismo - desta série - Parte 1 desta Série


Livros:
Oizerman, Teodor.O Existencialismo e a Sociedade. Em: Oizerman, Teodor; Sève, Lucien; Gedoe, Andreas, Problemas Filosóficos.2a edição, Lisboa, Prelo, 1974.
Sarah Bakewell, At the Existentialist Café: Freedom, Being, and Apricot Cocktails with with Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, and Others
Levy, Bernard-Henry , O Século de Sartre,Quetzal Editores (2000)
Jacob Golomb, In Search of Authenticity - Existentialism From Kierkegaard to Camus (1995)
Herbert Marcuse, One-Dimensional Man: Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society
Louis Sass, Madness and Modernism, Insanity in the light of modern art, literature, and thought (revised edition)
Hubert L. Dreyfus and Mark A. Wrathall, A Companion to Phenomenology and Existentialism (2006)
Charles Eisenstein, Ascent of Humanity
Walter Kaufmann, Existentialism from Dostoevsky to Sartre (1956)
Herbert Read, Existentialism, Marxism and Anarchism (1949 )
Martin Heidegger, Letter on "Humanism" (1947)
Friedrich Nietzsche, The Will to Power (1968)
Jean-Paul Sartre, Existentialism And Human Emotions
Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo
Maurice Merleau-Ponty, Sense and Non-Sense
Michel Foucault, Power Knowledge Selected Interviews and Other Writings 1972-1977
Erich Fromm, Escape From Freedom. New York: Henry Holt, (1941)
Erich Fromm, Man for Himself. 1986
Gabriel Marcel, Being and Having: an existentialist diary
Maurice Merleau-Ponty, The Visible and The Invisible
Paul Ricoeur, Hermeneutics and the Human Sciences. Essays on Language, Action and Interpretation
Brigite Cardoso e cunha, Psicanálise e estruturalismo (1979)
Paul Watzlawick, How Real is Reality?
G. Deleuze and F. Guattari,
Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia
Robert C. Solomon, Existentialism
H.J.Blackham, Six existentialist thinkers
Étienne de La Boétie, Discourse on Voluntary Servitude, or the Against-One (1576)